A crise de credibilidade da igreja

  • 28/08/2025
A crise de credibilidade da igreja
A crise de credibilidade da igreja (Foto: Reprodução)

A Igreja, enquanto instituição milenar e corpo de Cristo na Terra, enfrenta um dos seus maiores desafios contemporâneos: a erosão da sua credibilidade. Diante de uma série de escândalos, que vão desde abusos sexuais e financeiros até a instrumentalização política do púlpito, a confiança da sociedade e de seus próprios membros tem sido severamente abalada. Essa crise não é apenas de imagem, mas de identidade eclesiástica.

O presente artigo busca analisar o papel fundamental da eclesiologia, o estudo da natureza e da missão da Igreja, na promoção de uma cultura de transparência e responsabilização como caminho para a restauração. Argumenta-se que uma eclesiologia renovada, fundamentada na teologia da comunidade, da profecia e do serviço, é a única via capaz de reverter a atual crise e reacender a chama da esperança.

A crise de credibilidade da Igreja contemporânea não pode ser dissociada de uma eclesiologia institucionalista que, por vezes, priorizou a preservação da estrutura em detrimento da ética e da verdade. A ênfase excessiva na hierarquia e na autoridade clerical, em detrimento do sacerdócio de todos os crentes, criou um ambiente propício para a ocultação de crimes e a falta de responsabilização. O medo do escândalo, que poderia manchar a "honra" da instituição, muitas vezes superou a urgência de proteger as vítimas e de buscar a justiça. Em tal cenário, a Igreja-organização substituiu a Igreja-corpo, transformando o sagrado em um mero aparelho burocrático.

Para reverter esse quadro, é imperativo que a Igreja retome uma eclesiologia da comunidade. Esta perspectiva teológica, que remonta aos primórdios do cristianismo, entende a Igreja não como uma pirâmide de poder, mas como uma família de fé, onde cada membro é corresponsável pelo bem-estar e pela santidade do todo.

Nessa visão, a transparência não é apenas uma estratégia gerencial, mas uma expressão do amor e da comunhão fraterna. A prestação de contas, tanto financeira quanto moral, torna-se um dever mútuo e não uma imposição de fora. A vulnerabilidade de um é a vulnerabilidade de todos, e o sofrimento de um membro afeta o corpo inteiro.

Além disso, a recuperação da credibilidade passa pela redescoberta da eclesiologia profética. A Igreja é chamada a ser a "voz dos que não têm voz" e a se posicionar contra as injustiças, inclusive as que se manifestam dentro de suas próprias paredes. O profeta bíblico, muitas vezes incompreendido e rejeitado, é a figura que expõe o pecado e convoca à conversão. Uma eclesiologia profética exige que a Igreja denuncie o mal, comece por si mesma, e que se posicione firmemente ao lado das vítimas, e não dos perpetradores. Isso implica a implementação de mecanismos robustos de denúncia, investigação e punição, sem distinção de hierarquia ou posição.

Por fim, a crise de credibilidade é um chamado urgente para a prática de uma eclesiologia do serviço. Cristo, o fundador da Igreja, lavou os pés de seus discípulos, oferecendo o exemplo máximo de liderança servidora. A autoridade eclesiástica, nessa ótica, não é para ser exercida como domínio, mas como cuidado e proteção. A recuperação da confiança só será possível quando a liderança eclesiástica assumir, de fato, a sua responsabilidade de servir, proteger e curar as ovelhas, especialmente as mais vulneráveis. O serviço é o antídoto para a arrogância e o poder que corroem a credibilidade.

Em conclusão, a crise de credibilidade da Igreja não será superada por campanhas de marketing ou por meras reformas superficiais. A verdadeira restauração reside no retorno a uma eclesiologia bíblica e integral. Ao resgatar a visão da Igreja como uma comunidade profética e servidora, a instituição pode não apenas enfrentar seus erros passados, mas também reconstruir a confiança, mostrando à sociedade que a sua identidade reside não em estruturas de poder, mas na busca incansável pela verdade, pela justiça e pelo amor. A crise, portanto, é uma oportunidade para a Igreja ser, de fato, aquilo que ela sempre foi chamada a ser: sinal de esperança e instrumento de redenção no mundo.

 

Daniel Santos Ramos (@profdanielramos) é professor, possui Licenciatura em Letras Português-Inglês (UNICV, 2024) e bacharelado em Teologia (PUC MINAS, 2013). Pós-graduado em Docência em Letras e Práticas Pedagógicas (FACULESTE, 2023). Mestre em Teologia (FAJE, 2015). Atualmente é colunista do Portal Guia-me, professor de Língua Portuguesa no Ensino de Jovens e Adultos (EJA) e Ensino Médio e de Língua Inglesa no Ensino Fundamental (ll) da SEE-MG, professor de Teologia no IETEB e professor de Português Instrumental do IE São Camilo. Escreveu dois livros, "Curso de Teologia: Vida com Propósito" (AMOB, 2023) e "Novo Curso de Teologia: Vida com Propósito (IETEB, 2025). Além de possuir mais de 20 anos de experiência na ministração da Palavra. É membro da Assembleia de Deus em Belo Horizonte (desde sempre), congrega no Templo Central.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: O Reino de Deus não é uma democracia

FONTE: http://guiame.com.br/colunistas/daniel-ramos/crise-de-credibilidade-da-igreja.html


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Top 10

top1
1. Deus Proverá

Gabriela Gomes

top2
2. Algo Novo

Kemuel, Lukas Agustinho

top3
3. Aquieta Minh'alma

Ministério Zoe

top4
4. A Casa É Sua

Casa Worship

top5
5. Ninguém explica Deus

Preto No Branco

top6
6. Deus de Promessas

Davi Sacer

top7
7. Caminho no Deserto

Soraya Moraes

top8
8.

Midian Lima

top9
9. Lugar Secreto

Gabriela Rocha

top10
10. A Vitória Chegou

Aurelina Dourado


Anunciantes